Luís Vicente um bilionário português em Angola

 

Luís Vicente um bilionário português em Angola 

 Pergunto-lhe se a Refriango, empresa de um português em Angola que fez a Blue…, como se tornou este senhor bilionário em Angola?

Quando é português é possível, e quando é angolano é impossível?”, defendia-se no Twitter Isabel dos Santos quando, em janeiro de 2020, irrompeu o Luanda Leaks e o governo angolano se afadigava na recuperação de dois mil milhões de euros que a empresária angolana teria desviado.

Discreto, verdadeiro homem-sombra, o empresário português a que Isabel dos Santos se referia é Luís Manuel Vicente, que, com a mulher Clélia, é o principal acionista do grupo Nuvi – que começou por se chamar Butzbach-Trading Internacional e tem grande parte dos seus ativos em Angola – e da Luís Vicente, uma das principais empresas portuguesas na produção e distribuição de fruta, em que Luís Manuel Vicente tem 42,7%, Clélia Vicente 42,59%, a irmã Lídia 7,32%, e o cunhado António outros 7,32%.

A história começou no início dos anos 1960, quando Luís Vicente, o mais novo de quatro filhos de um agricultor de Torres Vedras regressou do serviço militar e começou a dedicar-se ao comércio de vários produtos. Em 1967, focou-se na pera-rocha, conhecida no Brasil como a pera portuguesa. Como conta a revista Sábado, Luís Vicente comprava a fruta aos agricultores, armazenava e embalava num armazém na Freixoeira, e depois vendia no mercado do Rego, em Lisboa, onde adquiriu um posto de venda em 1969.

Em 1974, construiu na Freixoeira um armazém com rede de frio e, nesse ano, experimentou as primeiras remessas de pera-rocha para o Brasil. Quem o conheceu diz que Luís Vicente era temperamental, mas as irritações duravam pouco, e tinha um espírito empreendedor.

Dos Açores a Angola

Luís Vicente teve três filhos – Lídia Maria, Isabel Maria e Luís Manuel Vicente (que, pouco depois de complementar o 12.º ano, decidiu não prosseguir os estudos e começou logo a trabalhar na empresa de fruta). Casado com uma açoriana de Praia da Vitória, Clélia de Fátima, abriu em 1984 uma sucursal na ilha Terceira, com armazéns para abastecimento da ilha.

As empresas do grupo apoiam a Associação de Jovens de Fonte do Bastardo, duas vezes campeã nacional em voleibol. Clélia Vicente recebeu em 2019 a Insígnia Autonómica de Mérito Civil, atribuída pelo Governo Regional dos Açores. Em 1987, foi constituída a empresa Luís Vicente e arrancou a distribuição de fruta tropical.

Na década de 1990, deslocaram-se a Angola, onde detetaram e aproveitaram várias oportunidades de negócio. A origem da Refriango está na Açorango – Sociedade de Comércio Geral, com a importação e distribuição de bebidas e produtos alimentares em 1992 (altura em que Luís Vicente convidou José Estevão Daniel, um angolano que aos 13 anos já geria uma das lojas dos padrinhos, e que acabara de regressar do Cuando Cubango, onde estivera ao serviço do Ministério do Comércio). Nessa altura, tinham 30 contentores armazenados em Boavista, nos arredores de Luanda, e, em 1998, foi criada a Abastango.

A certa altura, negociaram uma parceria com uma marca portuguesa para lançar a atividade em Angola. A Angop referia, a 2 de março de 2004, citando o sócio-gerente José Estevão Daniel, que “o arranque da fábrica de refrigerantes Sumol, inicialmente previsto para o último trimestre do ano transato, está adiado ‘sine die’, devido a problemas burocráticos, relacionados com a concessão de visto aos técnicos estrangeiros”.

Blue, a marca de Angola

Em 2005, surgiu a Refriango, que lançou uma marca que se tornou um ícone de Angola e um exemplo em África, a Blue. Especializou-se na produção e distribuição de refrigerantes, sumos, águas, bebidas energéticas e alcoólicas – como a água Pura, os sumos Nutry e Tutti, a água tónica Welwitschia, a cerveja Tigra entre uma dezena de marcas. Hoje, tem dois polos industriais em Luanda e Huambo, e a unidade fabril de Luanda é uma das maiores de África, com 42 hectares, 28 linhas de engarrafamento, fazendo mais de 150 produtos. Tem uma rede de distribuição desde Cabinda ao Cunene.

No fim dos anos 1990, a Luís Vicente multiplicou-se em investimentos, com a construção do principal armazém na Freixoeira. Seguiu-se a constituição da Globalfrut, reconhecida em 2005 como uma organização de produtores e que tem hoje mais de uma centena de produtores. Em 1999, comprou a central frutícola no Sobral da Lourinhã e a Herdade do Penique, em Ferreira do Alentejo, com quase 300 hectares, com o objetivo de produzir pera-rocha duas semanas antes do Oeste. Atualmente, tem 670 hectares de produção entre os pomares no Oeste e a herdade no Alentejo.

Luís Vicente morreu com 71 anos, mas ainda participou na construção dos principais alicerces do grupo. Com Luís Manuel Vicente, a segunda geração do negócio foi profissionalizando a gestão das empresas, tanto em Portugal como em Angola.

Em 2007, criaram a marca Plump e fizeram parcerias com produtores no Brasil e na Costa Rica, e são um dos principais operadores na fruta tropical, como abacaxi, manga, papaia, lima, mamão e abacate. Têm a Plump Brasil, Costa Rica, Espanha e Holanda, a que se seguiu em 2010 a Plump Angola. Neste país, iniciaram em 2002 a produção de legumes através da Nuviagro, com a marca Kibala. Em termos industriais, detêm a Frubis, marca de fruta desidratada e de IV Gama.

O império da fruta

Depois do sucesso que foi a criação de marcas de bebidas, o Nuvi Group em Angola lançou-se na criação de negócios e marcas noutras atividades. Em novembro de 2010, foi inaugurado, no bairro da Palanca, o Mega Cash & Carry, com a distribuição alimentar a evoluir para o retalho, através das lojas Bem Me Quer (que assentam num modelo “franchising” e contam com mais de 300 lojas) e o Bem Perto, distribuição e grossista com quatro unidades de venda em Luanda e Benguela.

Entre 2012 e 2015, o grupo expandiu-se para a área de higiene do lar, através da Reviva, para a higiene pessoal, com a DayCare Cosmetics, para o alimentar, com a YaYa, e para “snacks” e molhos, através da Vive. Em novembro de 2018, começou a funcionar uma fábrica de bebidas destiladas, a Diref, uma “joint-venture” entre a Refriango e a Diageo, para produzir vodka Smirnoff, gin Gordons e o whisky Black & White, em embalagens de vidro, garrafas de plástico reciclável, entre outros formatos inovadores.

Em 2018, a Luís Vicente adquiriu a Central Abrunhoeste, e nessa altura criou a marca Maria para a fruta produzida em Portugal. Em 2019, teve uma produção de 15 mil toneladas de fruta nacional (pera-rocha, maçã gala, nectarinas, pêssegos, ameixas, marmelo e dióspiro, entre outros frutos), que representou 35% da faturação de 75 milhões de euros.

De Luís Manuel Vicente conhece-se uma única frase, inscrita na abertura de um dos sites das suas empresas: “A excelência de execução é tão importante quanto a capacidade de identificar uma oportunidade.”

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