27 de Maio: Fui torturado por “Wadjimbi” e Ludgero, dois agentes da DISA muito temíveis

27 de Maio: Fui torturado por “Wadjimbi” e Ludgero, dois agentes da DISA muito temíveis

“O caldo entornou na madrugada do dia 27 de maio de 1977. No preciso instante em que, apavorado, entreabri a porta da minha casa, o mesmo aconteceu na da frente. O vizinho, amigo e meu camarada, copiava-me o gesto. Tropeçámos na cara um do outro, descobrimo-nos como que a olhar-nos ao espelho num momento de aflição. O pânico apoderara-se de nós. Abandonei o prédio assim que me foi possível e durante uns dias deambulei, sempre atiçado e enquanto mo permitiram, pelas ruas da cidade, até as barreiras militares começarem a tapar as saídas e a DISA, a maldita polícia, a bisbilhotar Luanda.

Afastei-me quanto pude de casa, da rua e do bairro, antes de me descobrir completamente cercado pelo poderoso dispositivo de homens armados, e só não me escapuli da cidade, e sei lá do país, também este já esquadrinhado e sitiado, por acabar recolhido em casa amiga, aonde me demorei protegido, enquanto a minha presença não causou apreensão. Dei por mim a andar a monte. A experiência não me agradou e, que se lixe, decidi voltar para casa e aí me deixar apanhar se assim tivesse que ser. (…)

Regressei ao 4.º andar do n.º 35 da Praça José Anchieta quando encontrei uma brecha no cerco. Saltei da cama na manhã seguinte desperto por vigorosas batidas na porta. Na presença da súcia que me foi arrebatar de casa, sem o auxilio de alguma permissão emitida pela justiça, o que fez da detenção um ato ilegal, enquanto, sem dissimular, enfiavam as manápulas pelos livros que me preenchiam as prateleiras, pronunciando injuriosas censuras sempre que os títulos das obras ou os nomes dos seus autores lhes aguçava a fobia marxista, vesti-me, retirei do pulso o relógio que num gesto usual acabara segundos antes de colocar, confirmei a presença do cartão de membro do MPLA na carteira, qual fetiche da ventura, despedi-me fugazmente, para atenuar lembranças futuras à minha companheira e, sem oferecer a menor resistência, segui-os. Já do interior do elevador vi-a acenar dois maços de cigarros. Recusei a oferta. – Os mortos não fumam. – Respondi-lhe. (…)

Ao final da tarde desse inesquecível e longo dia, também ela, mais as outras companheiras dos que comigo foram raptados nessa manhã, acabaram por dar entrada nos calabouços da cadeia de São Paulo, da qual um mês depois, angolana por opção, mas portuguesa de nascimento, é expulsa para Portugal, sem culpa formada, tão-pouco incriminada do que quer que fosse.

Como troféus, assim fomos mostrados, depois de impetuoso despejo, a quem nos esperava no quintal das traseiras da tenebrosa “protetora” do estado, a DISA. Se até aqui o porte de quem mereceu a incumbência de nos ir arrebatar foi moderado, logo se desvaneceu, quando o anfitrião, Victor Jeitoeira (…), nos recebeu. Proferiu as mais cruéis e selváticas ameaças, escoltou-as de insultos e guarneceu-as de chapadas. Ordenou logo que nos despíssemos, só até às cuecas (…). Reviver o misterioso passo que dei aperreado para transpor as portas de São Paulo, é uma imagem que ainda hoje me indispõe. Cruzar os seus portões foi dos momentos de maior alvoroço que experimentei na vida, por pressentir precipitadamente que o fim se aproximava.(…).

O primeiro embate com o quotidiano prisional foi um mau prenúncio. Esbarrei com a violência desmedida, do insulto até à pancada, e presenciei de perto a morte. No dia seguinte fui conduzido à presença dos meus delatores.(…)

Henrique Beirão, João Beirão, José Guerreiro, Henrique Morais o Mário Duarte e alguns outros, não têm um gigantesco peso na consciência? (…).

A estadia na “automotora” aconteceu num momento precoce da clausura, cedo demais para eu conseguir juntar as pontas e entender o que estava realmente a acontecer. (…) Sem ter um crime para confessar, tão-pouco cúmplice para denunciar, como sobreviveria a tão visível embuste? Levar-me-iam à presença de um juiz? O direito à defesa estava garantido? Seria tratado com dignidade?

Para o efeito, ou talvez não, foi criado um “tribunal”, ao qual despudoradamente um dos seus jurados apelidou de «comissão da lágrima no olho» pela moleza com que nos afiança ter “julgado”. Tal comissão atuou à revelia dos mais singelos paradigmas da justiça. Abusou física e moralmente dos acusados, acabou por mandar muitos deles para a morte, sem lhes dar a mais pequena hipótese de defesa e tão-pouco lhes fazer justiça. Três dos seus “jurados” eram Fernando Costa Andrade, Manuel Rui Monteiro e Artur Pestana (vulgo Pepetela) (…)

Tudo se passou ao fim de uma manhã, por volta da hora da distribuição do “pitéu”. Como na ordem de chamada não foi pronunciada a derradeira sentença “arruma as coisas”, concluí, fruto de experiência adquirida, não ter chegado ainda o momento de embarcar na enigmática e sinistra ambulância do Pitôco, que tão vazia de esperanças partia à noite e tão repleta de dor regressava pela manhã. Tratava-se tão-somente de uma “visita” ao comando, lugar de onde por vezes se voltava mais morto que vivo mas, ainda assim, com o coração a bater. (…)

Provido de material “escolar”, um caderno da UNICEF – que ignomínia – de folhas pautadas, e uma Bic, foi-me ordenado que desse livre engenho à escrita. Confuso, ainda perguntei:

– Escrever? Mas escrever o quê?

– O que tu quiseres. Mas escreve! Ripostou colérico o Baião.

Forçado, encetei a prosa e ocorreu-me falar de mim. Contei como me inquietaram os atropelos coloniais, como despertei, ainda jovem de liceu, em Nova Lisboa, e de como firmei a minha repulsa já aluno da Faculdade de Medicina em Luanda. Divagava eu pela noite, o quanto me era permitido, quando a redação foi bruscamente interrompida. O comando foi invadido por um dos mais temidos carrascos, Carlos Jorge, seguido de uma outra não menos sinistra personagem, figura escanzelada e algo corcovada, de cognome “Cansado”. O fedor detetável a léguas, anunciava a dimensão da bebedeira. isca em vinha de alhos, avisava-me do número de rounds do iminente “combate”. Ia ser rápido. Levar-me-iam depressa ao tapete e com ligeireza arrebatariam o K.O. Assim foi. Pancada de três em pipa, incluindo uma barra de ferro, outrora cabeceira de uma cama, tudo serviu para surrar e voltar a surrar, sem outro fim que não fosse o de satisfazer instintos animalescos, amplamente publicitados e sobejamente demonstrados.A excitação da peleja foi tal que atiçou o apetite de outras feras. Surgem então, sabe-se lá de onde, novos verdugos, que de imediato, investem qual abutres famintos sobre a presa manietada e pronta a ser devorada. (…)

João Baião voltou a chamar-me ao seu “laboratório”. Desta vez adotou uma conduta mais sórdida, tinha o propósito de me obrigar a confessar passos que não dei, quiçá para se precaver, não fosse o diabo tecê-las, da não existência futura de uma elaborada nota de culpa. Para o conseguir, mandou-me prostrar no chão, de bruços e, nessa incómoda e humilhante postura, atou-me violentamente os cotovelos atrás das costas. Alguns minutos a penar nessa pose resultaram num corte da circulação sanguínea aos antebraços, as mãos incharam, e as pontas dos dedos perderam a sensibilidade. Afortunadamente o martírio foi breve, caso contrário não haveria retorno. Amansei os rompantes coléricos do Baião “confessando-lhe” ter sido a minha casa ponto de encontro e convívio de camaradas e amigos. (…) Este episódio sádico e doloroso, que me atirou para as cordas e a outros para outras variantes da tortura. (…)

O agente Baião ficou manifestamente satisfeito com o seu trabalho. Podia sossegar. Acabara de obter, após pungente “interrogatório”, a tão desejada confissão. Ao pretenso confesso estava destinada a transferência para nova morada, a cela “5”. (…)

Dormir foi coisa à qual me habituei a fazer diretamente no chão. A revista a que me sujeitaram à entrada para São Paulo não foi segura. Ao tato do apalpador de serviço, um tal “Alex”, escapou uma insignificância, que ficou a salvo no meu bolso das calças e que se tornou mais tarde, para desenrascar, objeto de grande utilidade. Já na cela, fragilizado e muito magro, senti necessidade de descansar. Deitei-me de lado no chão duro, mas, pela falta de substrato debaixo da pele, a anca esborrachou-se contra o solo de forma dolorosa. Virei-me ao contrário para dar folga àquele lado, queixou-se o outro. Pus-me de barriga para cima não tardou o sacro a protestar. Era um mal-estar aterrador tentar dormir e não conseguir pregar olho, ter que descansar e não o poder fazer. Encontrei a solução, para serenar o incómodo, no bolso das minhas calças. O lenço. O pequeno quadrado de pano, depois de dobrado e redobrado, transformou-se numa almofada que, interposta entre a dor e o chão, me consentia um tempo suplementar de apoio sobre o mesmo lado. Passava as noites numa constante inquietação, a mudar de posição. Ora vira para a esquerda, depois para a direita, barriga para cima, barriga para baixo, esquerda, direita…

Depois de acomodados para a noite e antes de alcançar a tranquilidade do repouso, para nos acalentarmos e enxotar maus agoiros, cantávamos (…) Entre nós, os da “automotora”, encontrámos a similitude e a aproximação nos temas da música popular brasileira. Cantávamos Tom Jobim, Chico Buarque e outros mais e, quando pulávamos de continente e pousávamos em Portugal, aí não esquecíamos o Zeca, o Adriano e o Fausto. (…)

Ao princípio da noite de um dia de Janeiro de 1979, a população prisional de São Paulo foi surpreendida por uma estranha movimentação de “conduzes”. De rompante, num lance ensaiado, invadiram as celas a vociferar os nomes arrolados para uma lista, aos quais, sempre que era encontrado o intimado, se lhes acrescentava a máxima outrora tão apregoada: “arruma as coisas”. (…)

Nascia o sol quando por fim chegámos ao campo de “reeducação” do Tari, com equimoses no corpo e o coração aos saltos. (…)

Outra das práticas usadas para fazer desaparecer indesejáveis, foi a de os enfiar num saco, embarcá-los num avião, e das alturas largá-los ao mar ou noutro qualquer lugar inóspito, dos tantos que Angola tem na sua imensidão. (…)

O Campo do Tari ficava perto da Quibala, na província do Kuanza-Sul (…) A nossa condição física passava por um momento de grande fragilidade. Tínhamos frio, passávamos fome, vivíamos na incerteza, a saudade morava connosco, a raiva era imensa e o medo teimoso.

Pela madrugada, com o sol ainda na preguiça, enfiados em toda a roupa que tínhamos, íamos para o campo da bola num passo acelerado, dar corpo a uma formatura de modelo militar e aí, em aprumado porte marcial, responder à chamada, não fosse alguém ter-se escapulido durante a noite. Na formatura ficava-se a saber da sorte que a cada um tocava nas fainas agendadas para o dia. (…). Despejavam-nos à porta das lavras de milho, batata, ginguba, produtos cujo enorme excedente, resultante do trabalho escravo, tinha destino e proveito dúbio; mandavam que as amanhássemos, vigiavam o empenho de cada um, e concluída a jorna regressávamos exaustos e a pé (…).

Em 1979, o dia 29 de Setembro foi a um sábado e desde a véspera que crescia a fé num mujimbo entusiasticamente espalhado, reputado de grande certeza, dizia-se, por proceder de fonte segura, chegou mesmo a garantir-se. Por ele, que falava da existência de uma “lista” e desta, pelo que o seu teor rezava, adivinhavam-se boas novas, quiçá em breve a liberdade. (…)

Acabada a cerimónia do adeus aos capatazes do campo, aceno a que acintosamente me escusei, saltei para a traseira de um jipe Land Rover, pertença da família de um dos companheiros que comigo deixava o campo, e encarrapitado entre os haveres de uns e o canastro de outros, encetámos o regresso a Luanda. (…) Voltava para o lar onde família não me esperava. O espaço, esse outrora pequeno mas afável, estava abusivamente ocupado. Acudiu-me o amparo dos amigos que restaram da refrega de 1977. (…)

Em meados de Janeiro de 1980, cidadão angolano por direito, muni-me do bilhete de identidade, do passaporte e de uma licença militar, não fosse a Pátria vir a requisitar os meus préstimos e fui comprar uma passagem de ida e volta para Portugal, na mira de descansar e re(a)ver a família.

Por cá me encontro, já lá vão quarenta anos, e ainda conservo o bilhete de volta. É improvável que o venha a utilizar.

Já perdeu a validade.”

 

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