JORNAL FACTOS DE ANGOLA NACIONAL “ Ndala Tandu já não se sabe se é cidade ou sítio qualquer”

“ Ndala Tandu já não se sabe se é cidade ou sítio qualquer”

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A capital da província do Cuanza Norte já foi uma das mais belas cidades do
país, conhecida como cidade jardim. Era tanta beleza que encantava todo e
qualquer viajante

Uma cidade pequenina cheia de encantos. Ainda me recordo do tempo em que a granja dos militares era linda, e vendo os militares passando em formatura em direcção ao campo para produzir hortícolas e frutas. O grande campo de girassol que pela manhã embelezava o quadro da cidade e perfumava o ar. Creio que muitos já não se lembram do largo do NENÉ, juntando uma bola, bem perto da estação dos caminhos-de-ferro, nem da santa que estava aí bem próximo.

Ndala Tandu está feita uma cidade triste sem sorriso para oferecer, parou no tempo, já não se sabe se é uma cidade ou é um sítio qualquer. Saudades muitas dos tempo em que nas torneiras saía água mineral da Santa Isabel. Comboio O comboio perdeu a sua graça, nem mais as crianças ficam admiradas a ver passar o monstro de ferro. Antigamente, o comboio de passageiros era o relógio para quem ia ou saía da escola. Às 11 horas, passava o comboio que vinha de Malanje e às 13 horas vinha de Canhoca para Malanje. O horário era sacramental, nada de atrasos, era tudo na divida hora. Como a província era produtora de café e de outros produtos agrícolas, tinha dois ramais independentes que se encontravam na Canhoca, eram o ramal do Dondo e o do Golungo Alto. Para que o funcionamento do comboio fosse sincronizado, não havia atraso, tudoera feito de forma a que os horários fossem cumpridos. Crescimento urbanístico Não só acabaram com a beleza da cidade, como também destruíram a sua arquitetura urbanística. Tirando o que deixou o colono, Ndala Tandu não cresceu em infraestruturas, as poucas existentes foram construídas de forma desorganizada sem nenhuma planificação urbanística. Falam em nova centralidade que, na realidade, não representa nada, são meia dúzia de casas que nem sequer chegam para ser chamadas de um bairro. Numa visita que efectuamos ao local deu para compreender a tristeza manifestada pelo nosso guia que num desabafo disse: “Mas, é verdade que isso é uma centralidade?”.

As pessoas têm dinheiro para construir. Porém, não há terrenos infraestruturados para que elas possam construir suas casas obedecendo as regras básicas de construção civil. Comércio, hotelaria e turismo Ndala Tandu não tem uma rede de comércio urbano, tirando as cantinas dos “mamadus”, não existe um supermercado, o que existia fechou por má gestão. A restauração é péssima. Nos chamou a atenção um restaurante de nome OASIS que tem uma sala que só para se entrar nela o cliente tem de pagar KZ 1.500.00 (mil e quinhentos Kwanzas), um absurdo que ninguém impõem regra e a justificação da gerência é a de que o governo deve mais de KZ 40.000.000,00 (quarenta milhões de Kwanzas) e não paga, por isso, na sala VIP, que de vip não tem nada, se deve pagar para permanecer nela. Temos andado por esta Angola e entrado em locais com bastante qualidade e nunca vimos um pagamento adicional por se sentar num outro lugar do restaurante. Mas, mesmo assim, se recomenda o restaurante do Hotel Miradouro, remodelado e com pessoal atencioso e com preços acessíveis, apenas achamos que precisa melhorar o menu que já foi muito melhor. A hotelaria, ainda, precisa aprender a prestar serviços de qualidade. É muito difícil encontrar quartos disponíveis nos principais hotéis. Porém, não se justifica que um hotel como o TERMINUS que é de quatro estrelas não tenha internet a funcionar. Os hóspedes precisam trabalhar e se comunicar com o mundo, retirar a internet é cortar os pés ao turista. A hotelaria e a restauração precisam formar os seus quadros. Talvez pelos baixos salários que pagam aos funcionários, recrutam elementos sem qualificação adequada. Qualquer pessoa que frequente os hotéis, pensões ou restaurantes da cidade se apercebe, facilmente, que os mesmos não têm preparação para atender convenientemente os turistas. A cidade, se ainda posso chamar de cidade, não tem vida nocturna, nem locais de lazer. O jardim botânico, um dos locais que já foi aprazível, se transformou em matagal e lavras para os populares. O governo não sabe da importância do jardim botânico na captura do turismo. No mundo, há muitas cidades que só vivem do turismo e o ecoturismo é o que as pessoas mais procuram. Educação e saúde Devemos dizer que em termos de infraestruturas, estas duas áreas são as que mais cresceram. Todavia, a manutenção dos hospitais e centros de saúde, deixam muito a desejar, muitas das escolas estão quase em estado de abandono, até parecem não possuírem um corpo de direcção. Os hospitais têm uma grande falta de medicamentos, mas, também, os funcionários ainda não perderam o hábito de os furtar. Ao contrário da educação, os profissionais da saúde participam dos concursos para admissão nos quadros do ministério, são colocados nos hospitais da cidade ou da periferia. Porém, passados algum tempo voltam a Luanda onde são colocados em outros hospitais. Com este comportamento, que só acontece com a cumplicidade de funcionários seniores do Ministério da Saúde, tem prejudicado e de que maneira a província. Urge, os órgãos centrais corrigir esta situação. Justiça O sector da justiça, não só em Ndala Tandu, mas como em toda a província é o elo mais fraco. Não é possível fazer crescer a província com um sector da justiça extremamente enfraquecido. A Procuradoria Geral da República não tem quantidade suficiente de magistrados para cobrir a província, dos dez municípios que compõem a província, apenas têm procuradores permanentes, enquanto que os outros quatros são atendido pelo magistrado que se encontra num outro município. A título de exemplo: o magistrado do Golungo Alto cobre, também, o município de Gonguembo; o de Ambaca, responde por Bolongongo; o de Samba Caju é responsável pelo município da Banga e, o magistrado do Kikulungo atende o município de Lucala.

Se atender um só município já é muito difícil agora imaginem atender dois que se separam um do outro por várias horas de caminhada, numa estrada sem qualidade, toda ela esburacada. E, como dizem os magistrados, sem meios de transporte. Se a PGR faz um esforço para cobrir os municípios, os tribunais nem se quer existem. Política A vida política na cidade continua a ser dominada pelo partido MPLA e secundado pela UNITA. A correlação de forças entre as duas forças políticas está muito equilibrada, os jovens estão cada vez mais tristes pelo incumprimento das promessas eleitorais e por que sentem que o governo central não presta muita atenção à província. Alguns jovens ligados ao MPLA que tiveram coragem de se exprimir, expressaram o descontentamento por sentirem que as políticas do Executivo para com os jovens do Kwanza Norte não são das melhores. Reconhecem que o governador é novo. Porém, dizem que estão aqui apenas para estudar, mas o seu destino depois de formados é Luanda. Ponto parágrafo Depois de muito tempo, comi rato do mato apanhado por garotos e assado ao nosso jeito, acompanhado de maruvo. Sentado num banco, no jardim botânico, sentindo a água do rio a passar pensei comigo, “O quê que falta para dar certo?”

Fonte: Jornal Pungo a Ndongo

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