Sociedade
Significado estratégico da presidência de João Lourenço na União Africana
Escrevi um artigo no início do mandato em que dizia: “o orgulho é de todos os angolanos e os desafios que se avizinham são colectivos”. No entanto, sem politizar o tema, ao terminar a presidência de Angola na União Africana sob a liderança do Presidente João Lourenço, gostaria de fazer um balanço, ainda que ténue e muito pessoal.
Na realidade, os doze meses à frente da União Africana representaram muito mais do que o cumprimento de um mandato rotativo. Embora algumas vozes dissonantes e menos atentas não tenham compreendido, o que estava em jogo era a afirmação de Angola no contexto internacional, sobretudo pela forma activa como exerceu essa liderança. Teremos de reconhecer, goste-se ou não de João Lourenço, a força, a persistência e a acutilância com que conduziu esse processo. Foi, de facto, um momento de afirmação política, diplomática e estratégica que reposicionou o país no xadrez continental e internacional.
Pela primeira vez em muitos anos, Angola não foi apenas observadora dos grandes acontecimentos africanos. Tornou-se protagonista num cenário conturbado, marcado por uma conjuntura económica mundial difícil e por um continente atravessado por instabilidade política, conflitos armados e desafios económicos profundos. O foco foi colocado, de forma clara, na paz, na segurança alimentar, na defesa da ordem constitucional e na cooperação regional.
Um dos maiores ganhos deste período foi o reforço da imagem de Angola como mediadora de conflitos. A actuação na região dos Grandes Lagos, especialmente no diálogo entre países com tensões históricas, consolidou a percepção de que Angola pode desempenhar um papel relevante, apoiando-se numa trajectória marcada pela superação de um longo conflito interno e pela construção de uma estabilidade política que hoje serve de referência para outros contextos africanos.
Por: Ramiro Barreira